Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004
Inovação e Empreendedorismo
O Engenheiro Belmiro de Azevedo deu um "baile" a toda a gente na apresentação que fez a convite do GATS (Gabinete de Apoio às Transferências do Saber da Universidade de Coimbra). É tão bom saber que nem todos os empresários em Portugal se ficaram pela quarta classe! Gostei muito da separação empresário/empreendedor e do incentivo à mobilidade dos cientistas e à educação para o empreendedorismo. Muito provocador e cheio, muito cheio de razão.
O texto está aqui e vale bem os dois minutos que demora a ser lido.
O texto está aqui e vale bem os dois minutos que demora a ser lido.
Terça-feira, Fevereiro 24, 2004
Máscaras
- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu
Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
{excerto de Pode Alguém Ser Quem Não É - Sérgio Godinho}
Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004
Blurred monocular vision in unstructured outdoors environment
[com um Nokia 7650]Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004
A Religião. O assunto proibido.
Tanta gente se tem indignado com a proibição dos símbolos religiosos nas escolas francesas. Engraçado. O papel das religiões na sociedade aparece aqui e ali graças a assuntos cada vez mais patéticos. No último episódio que vi da excelente série de "girl's talk" "o sexo e a cidade" a personagem interpretado por Jessica Parker diz qualquer coisa do género: "a igreja está como uma mulher de 36 anos e solteira: para manter alguma popularidade tem que ser muito flexível". E no entanto aquilo que tenho visto é que ainda ninguém reparou na "flexibilidade" do governo vizinho:
from Única:
"No próximo ano as aulas de religião tornam-se obrigatórias em todos os escalões do ensino em Espanha, contando para a passagem de ano e, até, para o acesso à universidade."
Eu sou suspeito. Fui o único da minha sala da escola primária que não frequentei os escuteiros e a quem era dada a liberdade de ir ou não à catequese, de acreditar naquelas estórias ou de não acreditar. E sem me aperceber fiz, graças aos meus pais numa das acções que mais lhes agradeço, o meu caminho espiritual. Não acredito em Deus. Em qualquer Deus. Coitado! pensa a maior parte dos crentes que me lêem. Desculpem mas julgo que era impossível ser mais feliz. Não me sinto superior mas sinto-me livre. Livre de pensar pela minha cabeça, de acreditar naquilo que me apetece.
Como cientista, que me considero, não penso que haja qualquer compatibilidade adicional. Conheço grandes cientistas crentes, e grandes cientistas não crentes. Mas uma coisa vos digo. Eu não seria cientista, e muito menos o cientista esforçado, que considero ser, se não fosse a constante sensação de haver tanto por explicar. E desculpem-me os crentes, isto é algo que lhes está vedado. Existe explicação sem prova para tudo. Não é preciso ciência. Sublinho que este é o meu ponto de vista. Claro que existem esforços por compatibilizar a religião com a ciência. Mas continuo a acreditar que nada sabemos e que a religião, no que toca ao conhecimento, apenas segue e por vezes com demasiado atraso aquilo que se vai descobrindo por via científica (a história sublinha isto em diversas ocasiões). Mais grave do que nenhuma religião dentro da sala de aula é uma religião imposta!
Quanto ao que se veste na sala de aula, julgo que em Portugal temos um outro problema, não ligado à religião, que me parece muito premente. Refiro-me ao facto de haver meninos, filhos de pais com muito dinheiro e pouca aptidão para educar, a ir para a escola trajando "roupa de marca" o que cria a inevitável separação menino rico - menino pobre. Muitas vezes (não quero tentar quantificar mas são muitas, acreditem) isto faz com que muitos pais tirem do seu prato para vestir os filhos tentando disfarçar a marca de pobre que ostentam de nascença. Arrepiam-me as fardas mas acreditem que em algumas escolas... e se calhar até exportávamos a ideia. Se o governo Francês obrigasse ao uso da farda talvez não se ouvisse tanto banzé. Claro que não concordo com a imposição da nossa cultura aos imigrantes mas acreditem que me questiono sobre o que faria se me aparecesse uma aluna de véu sobre a cara invocando que isso é um símbolo religioso e truncando de forma radical uma das ferramentas essenciais para a comunicação no ensino: o contacto visual. Parece que de repente todos se esqueceram que quem vai para um país também tem que absorver a cultura deste e de a respeitar. E se esse país tem por hábito manter a laicidade das instituições estatais por que será que derrepente todos se apressam a criticá-lo. Será que preferem o ensino da teoria de Darwin explicado num quadro preto encimado por uma cruz? (grande ironia) Ou será que preferem que o ensino seja moldado por forma a ter influência religiosa? E a ser assim, de que religião? de todas? Ou só das que respeitam a igualdade entre sexos (risos)?
from Única:
"No próximo ano as aulas de religião tornam-se obrigatórias em todos os escalões do ensino em Espanha, contando para a passagem de ano e, até, para o acesso à universidade."
Eu sou suspeito. Fui o único da minha sala da escola primária que não frequentei os escuteiros e a quem era dada a liberdade de ir ou não à catequese, de acreditar naquelas estórias ou de não acreditar. E sem me aperceber fiz, graças aos meus pais numa das acções que mais lhes agradeço, o meu caminho espiritual. Não acredito em Deus. Em qualquer Deus. Coitado! pensa a maior parte dos crentes que me lêem. Desculpem mas julgo que era impossível ser mais feliz. Não me sinto superior mas sinto-me livre. Livre de pensar pela minha cabeça, de acreditar naquilo que me apetece.
Como cientista, que me considero, não penso que haja qualquer compatibilidade adicional. Conheço grandes cientistas crentes, e grandes cientistas não crentes. Mas uma coisa vos digo. Eu não seria cientista, e muito menos o cientista esforçado, que considero ser, se não fosse a constante sensação de haver tanto por explicar. E desculpem-me os crentes, isto é algo que lhes está vedado. Existe explicação sem prova para tudo. Não é preciso ciência. Sublinho que este é o meu ponto de vista. Claro que existem esforços por compatibilizar a religião com a ciência. Mas continuo a acreditar que nada sabemos e que a religião, no que toca ao conhecimento, apenas segue e por vezes com demasiado atraso aquilo que se vai descobrindo por via científica (a história sublinha isto em diversas ocasiões). Mais grave do que nenhuma religião dentro da sala de aula é uma religião imposta!
Quanto ao que se veste na sala de aula, julgo que em Portugal temos um outro problema, não ligado à religião, que me parece muito premente. Refiro-me ao facto de haver meninos, filhos de pais com muito dinheiro e pouca aptidão para educar, a ir para a escola trajando "roupa de marca" o que cria a inevitável separação menino rico - menino pobre. Muitas vezes (não quero tentar quantificar mas são muitas, acreditem) isto faz com que muitos pais tirem do seu prato para vestir os filhos tentando disfarçar a marca de pobre que ostentam de nascença. Arrepiam-me as fardas mas acreditem que em algumas escolas... e se calhar até exportávamos a ideia. Se o governo Francês obrigasse ao uso da farda talvez não se ouvisse tanto banzé. Claro que não concordo com a imposição da nossa cultura aos imigrantes mas acreditem que me questiono sobre o que faria se me aparecesse uma aluna de véu sobre a cara invocando que isso é um símbolo religioso e truncando de forma radical uma das ferramentas essenciais para a comunicação no ensino: o contacto visual. Parece que de repente todos se esqueceram que quem vai para um país também tem que absorver a cultura deste e de a respeitar. E se esse país tem por hábito manter a laicidade das instituições estatais por que será que derrepente todos se apressam a criticá-lo. Será que preferem o ensino da teoria de Darwin explicado num quadro preto encimado por uma cruz? (grande ironia) Ou será que preferem que o ensino seja moldado por forma a ter influência religiosa? E a ser assim, de que religião? de todas? Ou só das que respeitam a igualdade entre sexos (risos)?
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004
Portugal - State of the art
Nos últimos tempos tem-se assistido a um assalto do pensamento derrotista que tem como denominador comum a invasão ou anexação por Espanha. No expresso de há duas semanas (acessível aqui) pode ler-se a opinião do empresário José Manuel de Mello que diz que "o melhor é juntarmo-nos a Espanha. «Façamos a Ibéria»".
from expresso:
"JOSÉ Manuel de Mello, 76 anos, um dos mais conhecidos empresários nacionais, está profundamente pessimista em relação ao futuro do país. Não acredita «de todo» nos políticos e diz que os empresários «apenas gerem a dívida» - e alguns têm mesmo «a mão esquerda mais desenvolvida» por se terem habituado a receber os subsídios de Bruxelas."
Nessa mesma edição lia-se uma opinião do director ("ser português é muito perigoso") no sentido de mostrar que devemos ter consciência de que vamos ser absorvidos pelos espanhóis (esse monstro com garras que nos manda para cá a fruta de fraca qualidade e vem pescar nas nossas águas)... poupem-nos. O facto de sermos tão pouco competitivos levará invariavelmente a que sejamos absorvido por alguém. Quando é que chegrá a altura de nos apercebermos que os nossos imobilismos são feitios nossos, que não são defeitos dos outros? Como costumo dizer numa infeliz brincadeira, não fomos nós que expulsámos os espanhóis foram eles que se quiseram ir embora para não ter que aturar o nosso triste fado, este de ficarmos quietos à espera que alguém nos passe à frente, e depois de sermos ultrapassados por todos começarmos a cortar a casaca e arranjar culpados, muitos, e de preferência de fora (invasão de espanhóis, angolanos, ucranianos ou domínio do imperialismo americano, qualquer coisa serve). As questões que penso serem relevantes vêm depois publicadas sem que ninguém dê por elas outra vez no expresso, e logo duas numa só edição (a desta semana):
from expresso na página 3 do caderno de economia:
"Portugal ocupa a última posição no ranking do desenvolvimento empresarial da UE. Mas não só da velha Europa dos quinze, nem da nova Europa a 25. É da futura Europa a 27."
(...)
neste mesmo estudo:
"Portugal não tem um único ponto forte na UE a 27"
E como é claro a culpa da nossa desgraça daqui a dois ou três anos será do alargamento. Em assuntos como a I&D ficamos a 5 lugares do fim, em empreendedorismo, inovação, registo de patentes, novas tecnologias de informação e comunicações, ficamos sempre no fundo da lista.
Mas disse-vos que havia dois artigos não é?
Guardo o melhor para o fim, aqui vai a cereja em cima do bolo: no caderno de Emprego (o mais importante para uma grande percentagem da população):
from expresso na 1ª página do caderno de emprego em letras garrafais:
"Jovens rejeitam ciência"
(...)
"Entre 1998 e 2001, a procura de cursos nas áreas científicas diminuiu 4%"
quem diria que temos uma rede de 23 escolas a formar engenheiros ou com outros cursos técnico-científicos (a título de exemplo, a Suiça tem apenas duas escolas e ambas de referência a nível mundial). E ainda por cima deparo-me cada vez mais com o dilema de pessoas com mérito, que para poderem manter uma actividade de I&D em Portugal seguem a única via possível: dar aulas num politécnico (há muitos!) e manter um pézinho num laboratório universitário a fazer aquilo de que gosta e ao mesmo tempo a engordar o Curriculum de um qualquer catedrático. E o que é que a indústria portuguesa ganha com isto? Muitos engenheiros de pouca qualidade (que mesmo assim são em número insuficiente) e catedráticos com muito curriculum não me parece ser muito tentador para os investidores. E para os investigadores a única saída razoável é sair do país e procurar uma instituição nos EUA, Alemanha, UK ou Holanda onde possam sentir-se recompensados pelo seu esforço. Para quando os laboratórios associados? E que tal alguns politécnicos serem reconvertidos, e parcialmente entregues a cientistas a trabalhar muito próximo da indústria e dos investidores? Se isso for bem feito, nem são precisos investidores nacionais. Quando as ideias são boas o dinheiro vem de fora (ver p. ex. o inesc-mn). Claro que até lá, a malta vai saindo e como é óbvio, a culpa é toda dos Americanos que nos levam a massa cinzenta toda!
from expresso:
"JOSÉ Manuel de Mello, 76 anos, um dos mais conhecidos empresários nacionais, está profundamente pessimista em relação ao futuro do país. Não acredita «de todo» nos políticos e diz que os empresários «apenas gerem a dívida» - e alguns têm mesmo «a mão esquerda mais desenvolvida» por se terem habituado a receber os subsídios de Bruxelas."
Nessa mesma edição lia-se uma opinião do director ("ser português é muito perigoso") no sentido de mostrar que devemos ter consciência de que vamos ser absorvidos pelos espanhóis (esse monstro com garras que nos manda para cá a fruta de fraca qualidade e vem pescar nas nossas águas)... poupem-nos. O facto de sermos tão pouco competitivos levará invariavelmente a que sejamos absorvido por alguém. Quando é que chegrá a altura de nos apercebermos que os nossos imobilismos são feitios nossos, que não são defeitos dos outros? Como costumo dizer numa infeliz brincadeira, não fomos nós que expulsámos os espanhóis foram eles que se quiseram ir embora para não ter que aturar o nosso triste fado, este de ficarmos quietos à espera que alguém nos passe à frente, e depois de sermos ultrapassados por todos começarmos a cortar a casaca e arranjar culpados, muitos, e de preferência de fora (invasão de espanhóis, angolanos, ucranianos ou domínio do imperialismo americano, qualquer coisa serve). As questões que penso serem relevantes vêm depois publicadas sem que ninguém dê por elas outra vez no expresso, e logo duas numa só edição (a desta semana):
from expresso na página 3 do caderno de economia:
"Portugal ocupa a última posição no ranking do desenvolvimento empresarial da UE. Mas não só da velha Europa dos quinze, nem da nova Europa a 25. É da futura Europa a 27."
(...)
neste mesmo estudo:
"Portugal não tem um único ponto forte na UE a 27"
E como é claro a culpa da nossa desgraça daqui a dois ou três anos será do alargamento. Em assuntos como a I&D ficamos a 5 lugares do fim, em empreendedorismo, inovação, registo de patentes, novas tecnologias de informação e comunicações, ficamos sempre no fundo da lista.
Mas disse-vos que havia dois artigos não é?
Guardo o melhor para o fim, aqui vai a cereja em cima do bolo: no caderno de Emprego (o mais importante para uma grande percentagem da população):
from expresso na 1ª página do caderno de emprego em letras garrafais:
"Jovens rejeitam ciência"
(...)
"Entre 1998 e 2001, a procura de cursos nas áreas científicas diminuiu 4%"
quem diria que temos uma rede de 23 escolas a formar engenheiros ou com outros cursos técnico-científicos (a título de exemplo, a Suiça tem apenas duas escolas e ambas de referência a nível mundial). E ainda por cima deparo-me cada vez mais com o dilema de pessoas com mérito, que para poderem manter uma actividade de I&D em Portugal seguem a única via possível: dar aulas num politécnico (há muitos!) e manter um pézinho num laboratório universitário a fazer aquilo de que gosta e ao mesmo tempo a engordar o Curriculum de um qualquer catedrático. E o que é que a indústria portuguesa ganha com isto? Muitos engenheiros de pouca qualidade (que mesmo assim são em número insuficiente) e catedráticos com muito curriculum não me parece ser muito tentador para os investidores. E para os investigadores a única saída razoável é sair do país e procurar uma instituição nos EUA, Alemanha, UK ou Holanda onde possam sentir-se recompensados pelo seu esforço. Para quando os laboratórios associados? E que tal alguns politécnicos serem reconvertidos, e parcialmente entregues a cientistas a trabalhar muito próximo da indústria e dos investidores? Se isso for bem feito, nem são precisos investidores nacionais. Quando as ideias são boas o dinheiro vem de fora (ver p. ex. o inesc-mn). Claro que até lá, a malta vai saindo e como é óbvio, a culpa é toda dos Americanos que nos levam a massa cinzenta toda!
Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004
A primavera, a invasão e os incêndios
Acacia dealbata invasora muito perigosa.
O título deste texto está relacionado não só com o tempo que se tem feito sentir mas também com uma invasão. A natureza habitua-nos a certos ritmos e a certas cadências às quais ficamos ligados desde novos e que marcam a nossa relação com o espaço onde crescemos. Desde novo que estou habituado ao aparecimento pontual dessas árvores de flor amarela que brotavam antigamente em dois ou três pontos muito contidos no matagal. E quando digo antigamente, não pensem que tenho 50 anos... estou a referir-me aos anos 80. Era raro, muito raro ver-se brotar uma acácia (ou mimosas como alguns lhes chamam). Trata-se de uma espécie exótica que foi introduzida em portugal de forma artificial (penso que para fins decorativos). No entanto, as suas características que estão adaptadas aos habitats de origem no Sudeste da Austrália e Tasmânia têm um impacto extremamente negativo devido ao rápido crescimento e disseminação. Após um incêndio as suas sementes, que estão espalhadas por toda a parte pois são muito leves, são as primeiras a brotar e fazem-no com uma grande velocidade inicial o que por sua vez cria sombra dificultando a progressão às espécies anteriormente dominantes. Acontece que agora estão literalmente em toda a parte. O impacto não se dá só ao nível da mera substituição da espécie mas tem consequências mais profundas como a de estas não garantirem que o suporte dos terrenos se dê da mesma forma.
Acacia mearnsii invasora perigosa.
Existe um projecto, o INVADER (INVasion AnD Ecosystem Restoration) que pretende estudar algumas interacções destes fenómenos nos sistemas dunares de algumas espécies invasoras. Aqui pode encontrar-se alguma informação que nos permite ter a noção de que existem cerca de "500 espécies exóticas subespontâneas, das quais 37 são consideradas “invasoras muito perigosas”, 56 “invasoras perigosas” e 104 “eventualmente invasoras”". O site está cheio de boas fotografias como as que aqui reproduzo.